Sobre os arquivos, o filme traz um grande material com imagens da época. Como foi essa pesquisa e o que você poderia destacar entre essas imagens?
Fizemos uma intensa pesquisa em arquivos norte-americanos e brasileiros. Recolhi um material imenso de pessoas e de arquivos. Passei um bom tempo nos Arquivos Nacionais em Washington e na Biblioteca JFK em Boston, assistindo filmes da época e consultando documentos.
Dos materiais mais importantes que trouxemos para o documentário, estão imagens de dois filmes, que se consideravam perdidos, que encontramos em coleções norte-americanas, que são os documentários Brazil The Troubled Land, dirigido em 1961 por Helen Rogers para a TV americana, e The Foreigners, realizado por Mark Johnathan Harris em 1968, sobre os Corpos da Paz na América Latina.
O filme de Rogers traz importantes registros como imagens de Francisco Julião e de figuras controversas, como o Padre Melo. Ele foi exibido na TV americana e influenciou a opinião pública e o governo americano da época. É uma clara propaganda anticomunista que procura situar o movimento no campo em Pernambuco como uma ameaça continental. O segundo filme, de Harris, é uma encomenda dos Corpos da Paz na Colômbia. Por muito tempo, esse filme desapareceu do catálogo da agência porque, o que deveria ser uma propaganda institucional do programa, se tornou, no filme, uma dura autocrítica da presença americana no país.
Encontramos ainda imagens feitas pela agência no Brasil, com a atuação dos voluntários em diversas localidades. São imagens coloridas, filmadas em 16mm e muito bem preservadas. Nada disso existia no Brasil. No caso de The Foreigners, nem o próprio diretor tinha mais o filme e recuperamos com a sua ajuda uma cópia em 16 mm que estava nos Arquivos Nacionais em Washington.
Outro achado que vale destacar são imagens em cores do encontro de João Goulart com John Kennedy nos EUA, realizadas pela Marinha americana em 35mm e que nunca circularam fora dos arquivos. Eu só conhecia um registro em preto e branco feito pela Agência Nacional e, mesmo assim, tive dificuldades em encontrá-lo no Brasil. É emocionante poder dar visibilidade a essas imagens. Elas nos apresentam uma nova textura do passado. Seu valor não é apenas histórico, mas estético.